Violência. Física, moral, social. Do homem contra a mulher. Do patrão contra o empregado. Do dinheiro contra a miséria. Do culto contra o bruto. Da arte – essa, a única violência que merece vingar.
O apaixonado Baltazar, em sua louvável missão de salvar a alma da esposa, Ermesinda, passa a espancá-la. Essa é a forma encontrada por ele de educá-la. Sabedor da inferioridade da mulher em relação ao homem, toma para si, altruisticamente, a dolorosa missão.
O cenário é desolador. Árido e bruto. Não tanto pela natureza que cerca os personagens, mas sim pela natureza dos próprios personagens. Cenário e personagens construídos, também eles, numa linguagem primitiva. Numa espécie ancestral da palavra.
Palavra que ainda não se transformou em palavra, que está a caminho de ser palavra. Mas que não é e nem será. Terá que morrer assim, sem metamorfose. E esperar pelo tempo. Assim como os homens, como os Sargas. Homem-besta. Homem a meio do caminho. Esboço. Uma humanidade falha e incompleta.
A ignorância como vilã e álibi. Aliás, difícil identificar vilões e heróis. Todos procuram cumprir seus papéis. E aí reside a verdadeira tragédia. Baltazar não foge às suas responsabilidades de homem e marido. Ermesinda se esmera em subjugar-se ao mando dos homens.
Em meio a isso, a arte e a comoção que causa. Arte sem cultura. Arte sem educação. Arte em meio à miséria. Arte. Que não resgata, não redime. Arte só arte.
Com este romance, o segundo do autor, Valter Hugo Mãe conquistou o Prêmio Saramago, em 2007. Não, não é um livro para se ler na praia. Sim, haverá efeitos colaterais. (No meu caso, uma dorzinha idiota no estômago, como se eu tivesse comido pedras.) Mas, definitivamente, é um livro a ser lido. Será lançado, no Brasil, pela Editora 34, agora em agosto.
Ficha Técnica: “o remorso de baltazar serapião”, de valter hugo mãe, editora Quidnovi, Portugal (2006)
July 28, 2010 at 1:03 am |
é um dos grandes romancistas aqui em portugal. gostei mt de O Meu Reino.