Trecho de “o apocalise dos trabalhadores”

 de Valter Hugo Mãe
pelo caminho, seguia revoltada ao ocorrerem-lhe referências tão eruditas no sonho que repetia vezes sem conta. revoltava-se por se render tão imediatamente àquelas conversas que seriam só para a impressionar e rebaixar. este é um livro sobre o trabalho de Goya, dizia-lhe o homem, um génio, veja. são coisas como já não há e nem deus havia de estar consciente da maravilha que vinha ao mundo quando este homem nasceu. sabe, maria da graça, há homens que surpreendem o criador, tenho a certeza. inchava todo para trás na sua poltrona de pele velha e parecia querer dizer que era brilhante por concluir tal coisa, como se pudesse também surpreender deus e regozijar-se por isso. ela respondia, certamente, senhor ferreira. ele levantava-se, punha-lhe as mãos nos ombros, inclinava-se um pouco à altura dela e beijava-a. não é que esteja certo, dizia ele, não estará com certeza, mas ambos sabemos o nosso lugar e é dessa forma que a sociedade se estrutura, é essa consciência que faz com que não se desmorone. a maria da graça trouxe cor a esta casa, eu já lhe disse isso. depois voltava a dobrar-se sobre a mulher e a tapar-lhe a boca com a sua, perscrutando a língua dela como se caçasse bichos ali dentro. o senhor ferreira não devia, ainda ontem aconteceu, e depois tenho pesadelos à noite, interrompia ela. pois eu sonho belissimamente, respondia-lhe ele. ela ajeitava-se nos seus braços e esperava que talvez fossem apenas uns beijos, um abraço mais demorado que servisse para o acalmar e já voltariam cada um ao seu trabalho. e que porcarias malvadas sonho você, perguntou-lhe. ora, que fico por aí a penar, porque estas coisas não se esperam de uma mulher. para um homem, achava, as coisas estavam feitas de modo diferente. os empregos são melhores, as liberdades maiores, e até a consciência distinguia uns de outras. para as mulheres, uma devassidão era já um perigo de grande luxo. se alguém o descobrisse, não arranjaria a maria da graça mais chão para esfregar. o senhor ferreira voltava a sorrir e a investir sobre ela como se mais animado, tão mais divertido quanto excitado. não seja ingénua, maria da graça, se descobrissem o quanto, digamos, gostamos um do outro, haveriam de a cobiçar até lhe porem a mão como eu. se aquilo era honestidade, a maria da graça não sabia. sentia-se como vulgar, com o maldito categoricamente afirmando que lhe punha as mãos pela oportunidade. era como ouvia cada palavra, enquanto uma mão limpava a casa, a outra limpava o ego imperialista do patrão. olhe, senhor ferreira, um destes dias o meu augusto descobre e vem aqui falar-lhe de uns assuntos difíceis.
(Págs. 11 e 12)

 

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