Uma história de amor. Pouco convencional, é verdade. Ainda assim, uma história de amor. Maria das Graças, faxineira, casada, apaixona-se – embora contra sua vontade – pelo senhor Ferreira, velho aposentado para quem trabalha três vezes por semana.
Ao longo do romance, o autor traz à tona o cotidiano dos trabalhadores urbanos, daqueles que chamamos de “massa”. O termo é ótimo: um número muito grande de pessoas, incontável, indistinto, sem nome, sem educação, sem rosto, sem cultura, sem dinheiro e, a característica mais importante, a identificação de um grupo ao qual NÓS não pertencemos. Gente que vive da mão pra boca. Ou, como já ouvi num filme (“O maior amor do mundo”, direção e roteiro de Cacá Diegues, 2006), gente “de verdade”.
A partir de Maria da Graça e do seu amor contrariado pelo senhor Ferreira, Valter Hugo Mãe expõe o tecido que forra a sociedade portuguesa. O tecido grosseiro e resistente, o tecido barato, reles, capaz de segurar o estofo e suportar a capa de cetim, renda ou brocados. A capa sofisticada e bonita. Agradável de se ver e tocar.
A crítica social, subterrânea, mas evidente, não vem sozinha. Surge ao lado de questões como a crescente onda de imigrantes que chegam a Portugal, as relações assimétricas entre homem e mulher, a religiosidade do povo português. Nesse último quesito, interessante notar que Maria da Graça, embora comece o livro como mulher devota, logo declara guerra contra São Pedro, às portas do céu.
A feminilidade e o erotismo da mulher portuguesa numa sociedade de contornos conservadores também marcam presença, seja na figura de Maria da Graça, seja via sua amiga Quitéria.
Comentário só para brasileiros: em Portugal, Maria da Graça não é “faxineira”, é “mulher a dias”. Como se a Maria da Graça só fosse mulher de vez em quando, em dias certos. Exatamente quando está trabalhando.
Para quem nunca leu Valter Hugo Mãe, este é um bom começo. O frescor da linguagem, o apelo às imagens, a paixão/compaixão que marcam seus personagens estão todos lá. E dá até para ficar com um sorrisinho no rosto ao final do livro.
Ficha Técnica: “o apocalipse dos trabalhadores”, de Valter Hugo Mãe, editora Quidnovi, Portugal (2008)