Sem medo de assumir riscos, a Festa Literária de Paraty transforma-se num grande fórum de debate de ideias
Das 20 mesas que constaram da programação oficial da Festa Literária Internacional de Paraty, incluindo nessa conta a conferência de abertura, aproximadamente metade contou com a participação exclusiva de escritores. Mas o que poderia parecer um contrassenso, considerando se tratar de uma festa literária, foi o que deu força a esta oitava edição do evento.
As críticas começaram cedo, com a escolha do antropólogo e sociólogo Gilberto Freyre como homenageado da festa. E as mudanças não ficaram por aí. A programação oficial da Flip deste ano incluiu três mesas voltadas à discussão da obra do homenageado da vez, o que não aconteceu nos dois anos anteriores.
Mesmo nas mesas das quais só participaram autores, o debate muitas vezes acabou extrapolando o fazer literário. Irã, Israel, fundamentalismo, religião foram temas fortes nas conversas com Azar Nafisi (escritora iraniana), A. B. Yehoshua (escritor israelense), Salman Rushdie (escritor indiano/britânico) e Terry Eagleton (crítico cultural inglês), por exemplo.
Isso significa que a Flip está perdendo o foco? Pelo contrário. A Festa Literária de Paraty se tornou um grande palco para o debate de ideias envolvendo personalidades de expertise e países distintos. Os livros estão lá, é claro, por toda a parte. Mas a matéria do que eles são feitos ganhou espaço, numa versão expandida do mundo literário.
Ferreira Gullar
Entre tantas atrações, Ferreira Gullar foi seguramente um dos destaques. Participou de sessão de leitura de poemas de Carlos Drummond de Andrade e, na mesa seguinte, falou sobre sua própria carreira, suas obras e seu modo de pensar.
Bem humorado e inspirado, conquistou a platéia, que, a bem dizer, estava muito disposta a ser conquistada por ele. O nascimento da poesia concreta, seu relacionamento com os poetas concretistas, o movimento neoconcreto, o papel da militância política em sua vida, o exílio, os bastidores da criação do Poema Sujo, um dos seus poemas mais conhecidos, lançado em livro em 1976, foram alguns dos temas rememorados.
Em setembro, Gullar vai lançar um novo livro de poesia, “Em alguma parte alguma”, depois de jejum de 11 anos. Ao ser questionado sobre as razões que o levaram a ficar tanto tempo sem publicar, o poeta, que por muito tempo acreditou que seria pintor, respondeu: “Arte é uma coisa que nasce sem a gente saber e é só assim que tem graça”.
Gullar acaba de ganhar o prêmio Camões, considerado o mais importante prêmio literário para autores de Língua Portuguesa, concedido pelo conjunto da obra. Em poucas palavras, conseguiu sintetizar sua ideia de arte: “A arte existe porque a vida não basta”. E fez questão de dizer que isso não era apenas uma frase de efeito, e sim ‘a verdade‘.
Mas nem só de convidados ilustres faz-se a festa. Há uma figura essencial para o sucesso da Flip que nem sempre é lembrada. São os mediadores. Cabe a eles o muitas vezes difícil papel de conduzir a conversa, estimular a participação de todos os convidados, incentivar a palavra, enfim, fazer render o encontro.
Destaques da mediação
Em minha opinião, o melhor deles é Ángel Gurría-Quintana, jornalista mexicano que já virou presença obrigatória na Flip. Gosto do Ángel porque ele realmente conhece seu trabalho. Sabe quando intervir e quando deixar a conversa seguir por conta própria. Faz a engrenagem funcionar e depois sai de cena. Não por acaso, coube a ele mediar três mesas dessa vez.
Também gostei da atuação do Samuel Titan Jr., que segue caminho bem diferente do Ángel. Na conversa com Ferreira Gullar, Samuel garantiu uma boa dose de espontaneidade. Também já conhecido da Flip, ao mesmo tempo em que provocou o desenrolar do discurso do poeta, divertiu-se junto com o público. Fez lembrar que estávamos, mais do que num evento literário, numa festa dedicada a pessoas que simplesmente gostam dos livros e do que eles representam.
Uma boa surpresa foi a jornalista Cristiane Costa, que também fez um ótimo trabalho nas duas mesas que mediou. Introduziu o debate trazendo informações interessantes e pertinentes. Usou seu conhecimento e sua experiência para criar uma plataforma que serviu de base para o debate.
Enfim, três mediadores eficientes, com estilos muito diversos. Espero encontrá-los outras vezes.
Com transmissão ao vivo, via internet, de todos os debates e intensa cobertura de mídia, a Flip e seus convidados invadiram os jornais antes, durante e depois do evento. A meu ver, esse é um dos grandes méritos do evento: tirar a literatura dos cadernos especializados e trazê-la para o espaço nobre dos primeiros cadernos. Muitas vezes, com direito à chamada de capa.
Se as mudanças desta oitava edição da Flip vieram para ficar ou se prestaram exclusivamente a esta ocasião, não se sabe. Também não importa. Enquanto Paraty servir de cenário para o debate cultural em sentido amplo, envolvendo um público tão diverso como o da Flip, que vai de especialistas a aficionados, do erudito ao leigo, do acadêmico ao profissional de mercado, a festa dos livros continuará valendo a pena.

September 15, 2010 at 4:28 pm |
Cara amiga
O livro Os moreira frota de ipueiras narra toda historia dos frota no
Brasil.
Abç pra ti…Waleska.